terça-feira, dezembro 23, 2014
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Por: Walter Brito

Larry Rohter era um desconhecido do grande público e, até no meio jornalístico, no país que era correspondente do New York Times em 2004. “Pirassununga 51” era o apelido que o jornalista Cláudio Humberto deu ao avião comprado por Lula, para substituir o Sucatão de Fernado Henrique Cardoso. As críticas de CH, a verve afiada de Diogo Mainardi, bem como os conselhos que Brizola deu ao Lula, para que ele controlasse a bebida alcóolica, não convenceram o ex-torneiro mecânico que continuou tomando a branquinha mundo afora. Os estrategistas do PT à época, também não conseguiram domar o chefe, forjado nos sindicatos de trabalhadores do ABC. É lá, onde seus líderes bebem sem limites, a linguagem é chula e, o machismo ajuda a formar o poderio sindical de nosso país, que ao seu modo, enfrenta a indústria automobilística e outras em diverso segmentos. Os sindicatos da área automobilística e afins, representam o carro-chefe do sindicatos no Brasil.

O torneiro mecânico Lula da Silva, foi orientado naquele período pelo frei Chico, seu irmão mais velho e comunista de proa. Foi o frei Chico quem apresentou Lula ao empresariado, intelectuais, artistas e aos jornalistas.

partir daí, o pernambucano de Garanhuns foi caindo na graça da classe média e quando os ricos do Brasil assustaram, ele era presidente de um partido poderoso, que o transformou no maior líder da américa latina, presidente do Brasil por dois mandatos e, ainda elegeu a ex-brizolista Dilma Rousseff, por duas vezes , para o cargo mais importante da nação.

Desta forma, os conselhos do velho caudilho Leonel Brizola, que Lula derrotou e disputou o segundo turno das eleições de 1989 com Fernando Collor, não serviram. Até porquê Brizola passou a ser conselheiro do ex-torneiro mecânico, num período em que ele era seu vice na disputa presidencial de 2002. Portanto, subalterno!

Como Lula sempre foi maior que seu partido, ele só obedecia seus assessores na questão que ele não dominava, como economia e os passos do cerimonial. Mesmo assim, Lula quebrou protocolos. No dia que estava mal humorado, cansou de rasgar discursos elaborados pelos seus intelectuais e, os fez de improviso.

Quando Larry Rohter publicou seu texto, de alguma forma baseado nas críticas dos dois jornalistas brasileiros que nem sequer os conhecia pessoalmente: Cláudio Humberto e Diogo Mainardi. Claro que Larry ao escrever a reportagem famosa, procurou outras fontes, além de CH e Mainardi. Lula ficou louco com a publicação. Ele perdeu as estribeiras com a repercussão da matéria no maior jornal do mundo, O New York Times. “Luiz Inácio Lula da Silva nunca escondeu seu apreço por um copo de cerveja, uma dose de uísque ou, melhor, um trago de cachaça, a potente aguardente do Brasil. Mas alguns de seus conterrâneos começaram a se perguntar se a predileção do presidente por bebidas fortes está afetando sua atuação no governo”, sentencia Larry.

Com quarenta anos escrevendo sobre o Brasil, 14 dos quais morando por aqui , casado com nossa conterrânea, Clotilde Rohter; o norte-americano aprendeu o jeitinho brasileiro de ser. Ele até declarou que numa palestra que veio fazer no Brasil, o seu livro serviu como identidade, para ele pegar o avião, pois estava sem documentos e o jeitinho brasileiro funcionou. Nesse sentido e aprendendo com os conterrâneos de sua esposa, Larry fez amizade com seleto grupo de intelectuais e poderosos, pois era correspondente do mais importante jornal do mundo em nosso país.

Quando Lula falou que ia expulsá-lo, os seus poucos amigos poderosos e a força do quarto poder falaram mais alto. Lula teimoso como sempre, não se deu por vencido com a reação contrária da mídia. O jurista Miguel Reale, sentenciou à época: "Muitas vezes a burrice é pior do que a maldade”. O nosso ministro da Justiça era o ex-advogado do Lula, o saudoso Marcio Thomaz Bastos. Bastos estava viajando para o exterior, quando a matéria de Larry foi publicada. De lá, ele ligou para o Lula que durante 1 hora e 20 minutos tentou convencê-lo e disse que era contra a expulsão do norte- americano. Segundo uma fonte do Palácio do Planalto, Lula disse ao ministro Bastos que não se preocupasse, pois ele mataria a bola no peito e a colocaria no chão redondinha e, nos pés do ministro substituto Luiz Paulo Teles, que certamente faria o gol. O filho de dona Lindu publicou o fato no Diário Oficial:

GABINETE DO MINISTRO DESPACHO DO MINISTRO EM 11 DE MAIO DE 2004 N O 253 - PROCESSO Nº 08000.004044/2004 - 52.WILLIAM LAWRENCE ROHTER JUNIOR. EM FACE DO EXPOSTO, DETERMINO O CANCELAMENTO DO VISTO TEMPORARIO OUTORGADO AO ESTRANGEIRO WILLIAM LARRY ROHTER JUNIOR, DETERMINANDO, AINDA, AO DEPARTAMENTO DE POLICIA FEDERAL QUE O CIENTIFIQUE PESSOALMENTE DESTA DECISAO E DE QUE, NOS TERMOS DO ART. 57 DA LEI N O 6.815/80 E ART. 98 DO DECRETO N O 86.715/81, SEJA NOTIFICADO A DEIXAR O TERRITORIO NACIONAL NO PRAZO DE OITO DIAS.
LUIZ PAULO TELES FERREIRA BARRETO INTERINO"".

O New York Times, a imprensa brasileira, bem como nossas principais instituições reagiram e gritaram: “O gringo é nosso protegido”. Lula continuou sua luta como presidente, inclusive, obteve muito sucesso e foi ovacionado nos quatro cantos do mundo. Sem ninguém saber, Lula fez tratamento para controlar a bebida e controlou. Contudo, sua história foi manchada mundo afora, pela tentativa de expulsar Larry Rohter.

O correspondente da revista Newsweek e do New York Times, foi em frente e aprendeu com os brasileiros, que o cavalo não passa arreado duas vezes diante da mesma pessoa. Apesar de ter nascido em Illinois e ser muito urbano, Larry montou no seu cavalo e foi para o Texas escrever: “Deu no New York Times” em 2008 e, por último: “Brasil em alta”.

O primeiro é ainda consequência do entrevero que Larry teve com o ex-metalúrgico brasileiro, cujo pano de fundo foram as experiências vividas pelo correspondente norte-americano , durante quase 40 anos passados no Brasil.

Apesar de ter sido um dádiva divina, a polémica com o presidente brasileiro, Larry tinha obrigatoriamente de se posicionar e aproveitar a sua fama de jornalista internacional, que venceu por meio da força da imprensa nacional e internacional, um dos líderes mais populares do mundo naquele período. Larry fez o dever de casa com muita elegância. No livro Brasil em alta, o norte-americano mostrou sua sapiência referente ao nosso país, oportunidade que aproveita para elogiar o governo Lula; mostrar o nosso enfrentamento referente a crise econômica que atingiu o mundo, quando saímos razoavelmente vitoriosos. O importante jornalista Larry Rohter, viajou também em seu livro pela nossa cultura, educação e nossas mazelas; como poucos brasileiros o fizeram. Eles discorre com maestria sobre a questão racial no Brasil e mostra com muita competência a diferença do racismo disfarçado no Brasil e o racismo explicito nos Estados Unidos da América. Tudo que ele escreve sobre a questão é um
Tabu no Brasil, inclusive, é feito com muito melindre nos meios de comunicação de nosso país. Larry fala sobre a questão racial, como se fosse um militante da causa negra brasileira e com conhecimento de causa, quando coloca todos os pingos nos is!
Enfim, Larry pontuou sobre as mudanças do Brasil no final do século XX e início do século XXI, quando nos transformamos de um país arruinado pela hiperinflação e pela ditadura, numa potência industrial, bem como uma das maiores economias do mundo.
Referente ao entrevero com o Lula que lhe deu fama, o americano disse que trata-se de um episódio superado, que pertence à sua história pessoal e talvez a história do Brasil. Ele diz ainda que o resultado mostrou para ele e para o mundo, que o Brasil é um país democrático, onde as instituições funcionam corretamente. Ou seja, o STF baixou uma liminar e o executivo acatou o decreto judiciário. Portanto, prevaleceu o princípio da liberdade de expressão.

“Depois que minha matéria foi publicada, o Palácio do Planalto e seus aliados procuraram desclassificar a reportagem, alegando que minhas únicas fontes foram Cláudio Humberto e Diogo Mainardi. Isso é uma balela, um completo absurdo. Nunca na vida me encontrei nem conversei com nenhum desses dois colunistas. E em todo caso, jamais teria baseado a reportagem em declarações de um par de críticos sem nenhum acesso a Lula ou seu círculo íntimo”, disse à época o jornalista americano.O repórter afirmou também que contribuiu para que Lula diminuísse o consumo de bebida alcóolica. Em outros trechos de suas muitas declarações sobre esse caso, Larry Rohter afirma: “Lula sugeriu que a reportagem era encomendada presumivelmente pela a Agência Norte-Americana de Inteligência, para minar o papel de liderança do presidente na formação do G20 (grupos de países ricos que incluía países emergentes).

Larry Rohter fez o seu papel como repórter competente e que dedicou quatro décadas de sua vida, ao estudo de nosso país e de suas nuances. Certamente ele merece o respeito de todos os brasileiros e de forma especial dos jornalistas da grande imprensa e da mídia alternativa. No momento em que o governo comete uma série de equívos, quando os desmandos na Petrobras ameaçam o desenvolvimento da sexta potência econômica do planeta, relembramos fatos que mancharam o Brasil e, outros que mudaram a nossa história para melhor. O otimismo de Larry Rohter com o nosso país, que é também a pátria de seus entes queridos, nos anima! O seu o Brasil em alta nos impulsiona a trabalhar duro, para que um dia a nossa história não permita que ele escreva o “Brasil em baixa”.

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