sexta-feira, novembro 09, 2018
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Hélio negão diz que Bolsonaro lhe deu uma carteira de deputado federal



Por: Walter Brito
No dia 20 de novembro próximo, completam-se 323 anos que Zumbi dos Palmares foi covardemente assassinado no Quilombo Palmares em Alagoas, quando foi traído por um companheiro. Defensor maior de seu povo contra a escravidão, Zumbi tornou-se símbolo de lutas, conquistas e vitórias da comunidade negra brasileira.
O subtenente do Exército, Hélio Fernando Barbosa Lopes, conhecido como Hélio Negão, e, na campanha de outubro, como Hélio Bolsonaro (PSL), elegeu-se o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro, com 342.491 votos. Lembrando que o militar afrodescendente foi candidato a vereador em Nova Iguaçu-RJ, no ano de 2016, pelo PSC, mesmo partido de Jair Bolsonaro à época, quando obteve 480 votos e não se elegeu.
Hélio negão foi o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro com 342.491 votos

Hélio Negão foi companhia constante do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), inclusive presente nas entrevistas do presidenciável nos momentos de tensão, como por ocasião em que Bolsonaro caiu nas pesquisas e também quando Joaquim Barbosa declarou apoio, na reta final, a favor de Fernando Haddad, ameaçando possível virada. Hélio Fernando foi, na verdade, um escudo para Bolsonaro, acusado de racista pela comunidade negra e pela mídia, quando por diversas vezes se posicionou como tal.

Quando Bolsonaro caiu na pesquisa, ele gravou entrevista ao lado de seu deputado eleito, Hélio Fernando Barbosa

Dono de sete mandatos de deputado federal, o então presidenciável do PSL, em diversas ocasiões debochou dos avanços da comunidade negra brasileira por meio das ações afirmativas, inclusive disse em alto e bom som certa vez, e já na pré-campanha presidencial, que acabará com todas as reservas quilombolas, se eleito presidente. “Eu fui a um quilombo em que o afrodescendente mais leve pesava sete arrobas. Eu acho que nem para procriadores eles servem. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto por eles e não concordo com isso. Se eu for presidente do Brasil, não teremos um centímetro sequer demarcado para quilombola”, disse Bolsonaro.
A afrodescendência nacional ficou chocada com a falta de sensibilidade do político, que embora tenha vencido as eleições com mais de 55 milhões de votos, desconhece a realidade da nova ordem mundial, que exige mudanças profundas no comportamento de nossos governantes. Neste sentido, o país tem uma dívida histórica com a comunidade negra, que ajudou efetivamente a construir o Brasil de dimensões continentais, é a oitava economia do mundo, mas o povo negro nunca participou de sua administração. Este mesmo povo derramou o sangue numa luta incansável para fincar os pilares de uma nação, onde seus habitantes são os mais alegres do planeta Terra!
Hélio Bolsonaro e seu protetor em plena campanha política

Reconhecemos a participação importante de Bolsonaro na ascensão política de Hélio Negão, que saiu de 480 votos, como candidato a vereador, e se elegeu deputado federal com 342.491 votos, aliás usando o sobrenome de seu protetor. Por outro lado, 104.838.753 eleitores votaram no segundo turno, quando Bolsonaro obteve 57.795.847 votos. Estima-se que 31.209.757, ou seja, 54% dos votos dados a Bolsonaro, são de afrodescendentes! Por isso, tanto Paulo Negão quanto Bolsonaro ganharam, e um ajudou o outro.
Contudo, não se sabe ao certo se o subtenente tem consciência disso, bem como se ele conhece efetivamente a importância que Zumbi dos Palmares teve e tem para nosso país, em especial para a negritude brasileira. O sistema que comandou o Brasil durante 505 anos o ensinou, e Hélio aprendeu de forma equivocada que as ações afirmativas são ruins. Claro que ele não tem culpa, mas terá quatro anos no Congresso Nacional, para entender melhor que as cotas raciais são importantes sim!
Hélio Fernando Barbosa Lopes terá a oportunidade de compreender que no Brasil e no mundo as ações afirmativas deram oportunidade para: Condolezza Rice, o general Colin Powell, Barack Obama e Oprah Winfrey, entre outros.   Com cotas semelhantes, de que estas personalidades usufruíram nos EUA, afrodescendentes estão estudando medicina e engenharia no Brasil, desde 2003.  
Nos 13 anos que Lula e Dilma administraram o país, sabemos que as salas das universidades se fizeram mais coloridas e os filhos de pobres e negros passaram a ter mais oportunidades, bem como as cotas para negros no serviço público são fundamentais para diminuir as desigualdades econômicas entre brancos e negros nos 27 estados da federação.
AUMENTANDO A RESPOSABILIDADE DO SUBTENENTE DEPUTADO

Bolsonaro faz o pronunciamento da vitória ao lado do amigo e deputado, Hélio Fernando Barbosa Lopes

Quando assumir o seu mandato no dia 1º de fevereiro de 2019, o subtenente Hélio Barbosa, obviamente, sentirá o peso da responsabilidade que simbolicamente ele carrega, pois será cobrado por militantes de entidades negras, pela continuidade das ações afirmativas implementadas a favor da afrodescedência.
Neste sentido, ele e o presidente Bolsonaro saberão que instituições consolidadas como a Secretaria de Políticas da Igualdade Racial - SEPPIR e a Fundação Cultural Palmares terão que ser respeitadas, como também as religiões de matrizes africanas e a demarcação das terras das comunidades quilombolas, a contribuição da cultura afro, bem como outras ações fundamentais para a integração da comunidade negra no processo de desenvolvimento do país, são legados que precisam ser preservados.
Como Jair Bolsonaro será o presidente de todos os brasileiros, independentemente de credo religioso, etnia, gênero, incluídos aí pobres, classe média e ricos, bem como eleitores de Bolsonaro e de Haddad, estamos todos no mesmo barco. O deputado Hélio Barbosa poderá ser um interlocutor importante, quando representará o Rio de Janeiro na Câmara Federal, mas também com a missão que, talvez sem saber, ele assumiu como compromisso público representando simbolicamente 54% da população de nosso país.
Evidentemente que a recíproca é verdadeira e Jair Bolsonaro, depois de eleito, não deverá fazer valer a denúncia do cantor rapper Marcelo D2: “Eu não sou racista e tenho até um amigo negão”, disse D2. Bolsonaro precisa valorizar pra valer o seu companheiro de campanha. O deputado carioca necessitará de apoio à altura de sua representatividade, que foi outorgada por Jair Bolsonaro na campanha. Como Hélio foi especial para proteger Bolsonaro da pecha de racista e o ajudou nas horas mais críticas, ele não deverá ser tratado como um parlamentar comum.
Vale relembrar, ainda, a afirmativa de Hélio Fernando Barbosa Lopes, ao comemorar a vitória para a Câmara Federal: “Para vocês que falam besteira, Jair Bolsonaro me deu uma carteira de deputado federal. Trata-se de um negro ou crioulo, o deputado mais votado do Rio de Janeiro”, disse.
Como se vê, o deputado federal mais votado no Rio, com 342.491 mil votos, deverá ter os aplausos de negros, brancos, amarelos e vermelhos, pois a raça humana é uma só. Contudo, o novo parlamentar precisará de se inteirar mais sobre as necessidades da comunidade negra e atualizar o seu discurso numa área complexa em que ele não é especialista. Neste sentido, sofrerá críticas duras e até radicais. Como o consenso será complicado nesta e outras áreas do governo que principia, finalizamos com uma frase de Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor da sua pele, ou sua origem, ou sua religião. As pessoas têm que aprender a odiar, e se elas podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto.”  Viva Zumbi dos Palmares!

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