quarta-feira, novembro 20, 2019
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O debate entre Lula e Collor, em 14 de dezembro de 1989


Por: Walter Brito

Três décadas serão completadas no próximo dia 14 de dezembro, data em que um pool de empresas de televisão foi formado pelas TVs Manchete, SBT, Bandeirante e Globo, quando foi transmitido para todo o Brasil o debate entre Lula e Collor, que, sem dúvidas, entra para a história como o marco da redemocratização, ocasião em que fez também 30 anos da primeira eleição após a ditadura militar que dominou o país por 21 anos. O Brasil vivia um momento de incertezas e tensão na maioria de nossos municípios e em todas as regiões. O grande transtorno era a inflação alta, dos Planos Cruzados 1 e 2, sob o comando do então presidente Sarney, que não conseguia controlar nem a inflação e muito menos o desespero do povo! Por meio do Programa Pão e Leite, Sarney procurava acalmar os mais necessitados, mas o inconformismo, sob a regência da classe média e boa parte de nossos intelectuais, se tornava cada vez mais difícil de ser contido. O povo exigia mudanças profundas e imediatas.
Vale lembrar que a classe média, que sempre carregou o país nas costas, se dividiu majoritariamente no primeiro turno daquela eleição de 1989, entre Brizola, Mário Covas, Ulysses Guimarães e Roberto Freire. Em contrapartida, o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, conseguiu dividir os mais necessitados, principalmente no Nordeste, com Fernando Collor, o azarão que superou todos os candidatos de centro e de direita, embora pouco conhecido nacionalmente, tal qual o seu partido, o PRN.  Além de tudo isso, Collor era candidato pelo minúsculo Estado de Alagoas, sem expressão eleitoral no país. O jovem presidenciável, com todo o gás e inspirado no bordão Caça aos Marajás, tinha deixado o governo de Alagoas aos 39 anos para disputar a Presidência da República.
O Velho Caudilho, Leonel de Moura Brizola, foi derrotado pela TV dos Marinho

Por outro lado, o ex-governador do Rio Grande do Sul, depois de 15 anos de exílio, conseguira derrotar a TV Globo e a direita no Rio de Janeiro em 1982, quando se elegeu governador também daquele estado. Entretanto, no plano nacional, as máculas pregadas pela rede de comunicação dos Marinho contra o engenheiro gaúcho foram mais fortes, e Brizola teve dificuldades de superar Lula no primeiro turno da eleição presidencial de 1989, oportunidade em que este obteve 0,5% a mais que o candidato que prometia fechar a Rede Globo. Por isso, o termo pejorativo Velho Caudilho, dado pelas elites com o aval da família Marinho  e outros que insinuavam que Brizola era um líder perigoso e desagregador, obviamente colaborou com a derrocada do líder e criador do PDT. Desta forma, consolidou-se a ascensão do novo líder que surgia nos fundos das fábricas do ABC paulista, Luiz Inácio Lula da Silva, o líder sindical que protagonizaria ao lado de Fernando Collor o mais importante debate político nos últimos 30 anos da história do Brasil.
Como sabemos, o poder não se entrega. Neste sentido, o poder é disputado com todas as forças no mundo democrático. No passado tínhamos uma concepção antiga cuja máxima era: “O poder não se entrega, ele é tomado pelo lado mais forte”, o que certamente equivalia a um vale-tudo!  Evidentemente que em 1989, a nossa realidade era bem diferente da de hoje, quando as redes sociais são as grandes vedetes da comunicação e contribuem efetivamente para a decisão a favor de um lado ou outro.
 O último debate a que nos referimos foi realizado no dia 14 de dezembro de 1989, entre Fernando Collor (PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e durou três horas. O famoso debate mostrou um Collor mais preparado para governar o Brasil e consequentemente conquistar o voto da maioria do povo brasileiro. Collor estava tranquilo e respondia às perguntas de seu adversário e dos jornalistas com sabedoria, serenidade e rapidez. Por outro lado, Lula se mostrava nervoso, ansioso e teve dificuldades de responder no tempo certo o que sabia e o que pretendia fazer por um Brasil melhor, em um momento decisivo em que o país estava por inteiro com o olho na televisão.
A vitória de Collor no debate, certamente ajudou os indecisisos  decidir pelo ex-governador de Alagoas

 O debate transmitido pelas quatro principais redes de televisão, à época, aumentava a responsabilidade de cada debatedor. Provocado por Collor, Lula se descontrolou e não rendeu o suficiente para superar o alagoano, que foi prefeito de Maceió aos 29 anos, deputado federal aos 32 anos, governador de Alagoas aos 38 anos e no dia do referido debate, contava com apenas 40 anos de idade. Embora Lula tivesse a facilidade de falar para as massas como líder sindical e de ter passado pela Câmara Federal, ele ainda não tinha as malícias exigidas naquele dia histórico. Fernando Collor foi de fato o melhor debatedor, posição aliás admitida, após a eleição, por José Genuíno, ex-deputado federal, ex-presidente do PT e um dos maiores amigos do candidato derrotado Lula.

DOIS ANOS E MEIO DO GOVERNO FERNANDO COLLOR.
Mandela sai do Cárcere na África do Sul e é recebido por Collor no Palácio do Planalto

Observadores atentos no Brasil e do exterior hoje estão convictos de que o governo Collor, durante os dois anos e meio de administração, foi injustiçado ao ser apeado do poder sem nenhum ato de corrupção provado, quando o ex-presidente foi absolvido em todos os processos contra ele no exercício do cargo. Um Fiat Elba, comprado por PC Farias com dinheiro de sobra de campanha, foi o objeto que teve participação decisiva no processo de impeachment do então presidente da República, Fernando Collor, no ano de 1992.
Muitos são categóricos em admitir, como fez o Banco Mundial, por meio de relatório em 2018, que entre diversos avanços no governo Collor, a instituição mostrou de forma clara que a população menos favorecida foi efetivamente mais beneficiada no governo Collor do que os ricos.
Entrevistado pela reportagem sobre as ações implementadas em seu governo, Fernando Collor disse o seguinte: “A abertura de mercado feita em meu governo permitiu aos brasileiros de todos os rincões transitarem em automóveis de alta qualidade, quando comparados com os automóveis usados nas ruas e estradas de nosso país, antes de 1990”. Segundo o ex-presidente, os automóveis, antes de seu governo, eram verdadeiras carroças e ficaram como lembrança de um passado triste para toda a população com mais de 40 anos hoje, que viu e conviveu com aquela realidade!
Ele afirmou ainda: “Quem não se lembra dos computadores arcaicos da década de 80? – E mais, a partir de nosso governo, notadamente passamos para um período no qual os nossos computadores e celulares eram de padrão internacional, quando inserimos o nosso país no mundo da tecnologia de ponta. A alta tecnologia que usufruímos hoje, certamente é fruto de nosso trabalho árduo nos dois anos e meio em que permanecemos na Presidência da República”, disse o ex-presidente.
O presidente Fernando Collor recebe o Papa João Paulo ll no Palácio do Planalto

Referente ao confisco da poupança, o ex-presidente não se conforma com o termo e diz de forma veemente: “Não houve confisco e nem sequestro do dinheiro do povo brasileiro. O propósito foi diminuir a liquidez financeira naquele momento de instabilidade. Prova disso, no governo de meu sucessor Itamar Franco, o Plano Real foi implantado e, caso não tivéssemos tido a coragem de tomar aquela medida, obviamente o Plano Real não teria sido implementado com todo sucesso. Lembro ainda que todos os brasileiros tiveram seus valores devolvidos em doze parcelas. Além disso, a correção monetária foi feita em melhores condições que as oferecidas pelo sistema financeiro à época. Ressaltamos, ainda, que a medida atingiu 10% das contas do nosso povo. Todos receberam o dinheiro de volta conforme prometido, quando tomamos aquela medida necessária no momento de grande crise”, concluiu o ex-presidente e senador pelo PROS de Alagoas, Fernando Collor de Mello.

COLLOR E CAIADO: OS ÚNICOS DE 89 COM MANDATO!
Collor no Senado e Caiado no Governo de Goiás

Embora Luiz Inácio Lula da Silva, derrotado por Fernando Collor na eleição de 1989, já esteja solto nas ruas do Brasil, depois de 580 dias no cárcere em Curitiba, sob a acusação de corrupção e lavagem de dinheiro; o ex-presidente e comandante maior do Partido dos Trabalhadores é, sem dúvidas, um dos maiores líderes políticos da América Latina, contudo sem mandato eletivo.
Daqueles que disputaram a Presidência da República em 1989, cujo total foi  de 23 candidatos, os únicos que  continuam com mandato são Fernando Collor (PROS) e Ronaldo Caiado (DEM). Fernando Collor de Mello está no exercício pleno do segundo mandato como senador, foi presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado e também da Comissão de Relações Exteriores. Tem mandato até 2022. Já Ronaldo Caiado é o atual governador do Estado de Goiás.

COLLOR E SUA INSERÇÃO NO CENÁRIO POLÍTICO ATUAL
A liturgia no exercício da Presidência da República

O ex-presidente Collor, ele e o seu antecessor José Sarney, sempre foram preocupados com a liturgia no exercício de suas atividades na Presidência da República. Procuraram seguir a máxima que diz: ‘A Presidência da República não é um cargo, é uma instituição’. Como a Presidência no Brasil reúne a Chefia de Estado e a Chefia de Governo, os dois ex-presidentes foram fiéis aos detalhes da referida liturgia, desde o uso de ternos bem talhados sob medida, à preocupação com o protocolo nos palácios do Brasil e do mundo, e também com as palavras ditas, pois a cadeira da Presidência é maior que o presidente e ninguém modifica. Neste sentido, as palavras deselegantes ditas por Bolsonaro ao presidente da França, Emmanuel Macron e determinadas postagens publicadas pelo twitter do presidente desagradaram a gregos e troianos, inclusive a muitos dos seus declarados eleitores.
Desta forma, temos lido, ouvido e visto na mídia matérias em que ex-presidente Collor discorda de certas ações do presidente Bolsonaro, mas o faz, com muita sabedoria e elegância. A preocupação do ex-presidente é certamente a preocupação da maioria da população, independentemente de ter votado ou não em Jair Messias Bolsonaro, pois ele é hoje o presidente dos 210 milhões de brasileiros.

O FILHO 03 DE BOLSONARO
O zero três em ação!

Entre as diversas entrevistas de Collor à imprensa, ele comentou a afirmativa do deputado mais votado do Brasil, Eduardo Bolsonaro (PSL), referente a um novo AI 5. Disse Collor: “É absolutamente inadmissível. São declarações vindas do núcleo duro do presidente, com assentimento dele”, arrematou. Ainda sobre o filho do presidente, quando Eduardo falou sobre a possibilidade de fechar o Supremo, com um cabo e um soldado, Collor se posicionou: “Onde é que estamos? Ele não podia falar nada parecido!

SEMELHANÇAS ENTRE OS ERROS DO EX E DO ATUAL PRESIDENTE!

Recentemente o senador alagoano disse em entrevista à coluna de Bernardo Mello Franco, publicada no jornal O Globo, que Bolsonaro está cometendo os mesmos erros que o levaram ao impeachment. Disse o ex-presidente: “Continuando do jeito que está, eu não vejo como este governo possa dar certo. Trata-se de erros primários. Vejo semelhanças entre o tratamento que eu concedi ao PRN e o que ele está conferindo ao PSL. Em outubro de 1990, nós elegemos 41 deputados. O pessoal queria espaço no governo, o que é natural. Num almoço com a bancada, eu disse: ‘Vocês não precisam de ministério nenhum. Já têm o presidente da República’. Erro crasso! Estou dizendo porque já passei por isso. Estou revendo um filme que a gente já viu. Vai ser um desassossego para ele”. Neste sentido, Collor diz que o impeachment do Bolsonaro é uma das possibilidades. O ex-presidente acrescentou: “Bolsonaro não vem se preocupando com a divisão da sociedade brasileira, que se aprofunda. Com a soltura do Lula, a tendência é que essa divisão se abra mais”, argumentou Collor.
Coincidência ou não, os protagonistas do último debate, um está nas ruas com o povo e outro, no Congresso Nacional. As palavras ditas naquela noite do dia 14 de dezembro de 1989 têm reflexos no Brasil de hoje, dividido entre os seguidores de Lula e os apoiadores fiéis de Bolsonaro.
No último domingo, os principais cenários da divisão em pauta foram à Avenida Paulista, ocupada pelos defensores incontestes do governo Jair Bolsonaro e, uma boa parte, contra o Supremo, enquanto que artistas de diversas tendências reforçavam o Festival Lula Livre, no Recife em Pernambuco, cujo palco foi balançado pelo grito de liberdade do líder Luiz Inácio Lula da Silva, que prometeu boas novas nas eleições de 2020 e 2022.
Lula comemora sua liberdade e o mês da Consciência Negra, no palco e diante da multidão em Recife

Alguns analistas de proa da política nacional, inclusive bolsonaristas, são categóricos em afirmar que Lula solto impede a ascensão  de quaisquer candidaturas  de centro em 2022, tais como as dos governadores de São Paulo e Rio, respectivamente João Doria (PSDB) e Wilson Witzel (PSC); Luciano Huck (sem partido), mas namorando o Cidadania de Roberto Freire; Tiririca (PL) e Henrique Meirelles (MDB). Com isso, a disputa ficará até as vésperas do pleito de 2022 polarizada entre Lula e Bolsonaro. Que o melhor debatedor convença o povo brasileiro pelo melhor caminho em 2022!

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