segunda-feira, abril 13, 2020
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Antonio Victor é formado em letras pela UnB e é professor da Secretaria de Estado de Educação do DF

Antonio Victor

Já vivi mais do que viverei. Alguma experiência trago nesses anos todos que por serem pretéritos já não mais me pertencem. Não pensei, nem em sonho ou pesadelo, que viveria para assistir a um ser invisível colocar todo o planeta de joelhos. Também o Brasil não foi poupado. Não apresenta o mesmo cenário de terra arrasada de algumas nações, especialmente da velha e segura Europa, mas com um agravante que antecede à onda viral e, aproveitando-se dela, se faz mais robusto no presente. Nunca pude imaginar que seria contemporâneo de uma população que habita um país trincado, dividido, rachado. Nunca fui adepto dos extremos, mesmo quando me enredei por esse caminho nos meandros do coração, porque o preço vem. Inevitavelmente. Prefiro ser chamado de tímido a ser chamado atrevido. Acho que a isso se pode chamar equilíbrio.
                                                                                                                                                                   
Não, não me considero sem opinião ou sem postura, ainda que alguém possa querer atribuir-me a pejorativa posição do em cima do muro. Por mais que o gato que se refugia em cima do muro permaneça protegido das garras do cão raivoso, esse não é, definitivamente, o meu estado. O meu estado é o da observação. Da análise. Do raciocínio que me dá a oportunidade cotidiana de ver o que muitos já não conseguem ou não desejam enxergar. Percebo com tristeza que estamos perdendo a capacidade enriquecedora do diálogo, porque diálogo pressupõe a possibilidade da convivência harmoniosa de opiniões diferentes, e parece que discordar virou coisa altamente ofensiva, algo que foge inteiramente ao campo saudável das ideias e se apossa do minado terreno da agressividade verbal, quando não se chega às vias de fato.

O politicamente correto se confunde com o incorreto político. Os polarizados, os extremos opostos se arvoram cada qual com suas razões, e a divisão se instala na sala, na cozinha, na mesa do jantar, no barzinho da esquina, nos bastidores do teatro, nos andaimes da construção, nas redações da imprensa, nos corredores do hospital, nos bancos da igreja, nas mansões e nos barracos, sem dizer da enxurrada de fake news disparadas às vezes por pessoas bem-intencionadas, mas carentes de critério antes de propagar mentiras de teor explosivo, capaz de detonar em pouquíssimo prazo reputações construídas ao longo de anos ou de uma vida inteira. As redes sociais viraram campo de guerra, com armas baixas de alto calibre nocivo, onde muitas personalidades fracas se transformam em gigantes perversos ocultos atrás do anonimato a provocar reações morais cada vez mais virulentas.

Estabeleceu-se no Brasil uma estranha dicotomia do Nós e Eles, e, como processo dicotômico de opostos que se complementam, o Eles e o Nós se confundem, ainda que os que assim se dividem não aceitem a condição de se completarem. Mas se completam. No campo ideológico, paradoxalmente, a falta de ideias faz com que estas cedam lugar a argumentos mesquinhos, ou à falta deles, a ataques pessoais com agressividade gratuita em claro desrespeito à condição de ser humano do outro que, por discordar de sua opinião, deixa de ser um referencial de diálogo e passa a ser adversário que rapidamente evolui para antagonista e alcança num piscar de olhos o posto de fero inimigo. Está selada a discórdia, e ambos, na maioria das vezes, ainda que ancorados na falta de ideias e argumentos plausíveis, se sentem aptos a um duelo de informações geralmente equivocadas e insultos infantis, porém perigosos, porque contribuem flagrantemente para a divisão.

Antes, era apenas a divisão de classes, outro binômio cruel: pobre-rico, empregado-empregador, proletário-burguês. Agora é a divisão individual. Por questões falsamente ideológicas irmãos se afrontam, filhos desdenham pais, casais se humilham, vizinhos se isolam, velhas amizades enfraquecem, quando não se rompem definitivamente. Nossos governantes, infelizmente, têm sido bons nessa praia. Essa prática maléfica, que não é de hoje, é acentuada de forma escancarada no governo atual. Parece que não governa uma nação, governa apenas para os seus eleitores, instiga-os ao confronto com os demais do país, faz mimos e agrados nas redes sociais, imita a fala e o gesto do populacho, que vai ao delírio. E se dá o direito de atacar quem não comunga de suas ideias... e acentua ainda mais a divisão.
Será que a fé cega acredita honestamente na intervenção de um messias?

E aí chega o coronavírus. Outra divisão, e desta vez das mais inacreditáveis e surrealistas do mundo, com duas posições antagônicas no modo de enfrentá-lo, a saber: a do presidente, e a do ministro do presidente! Fecha o Brasil, abre o Brasil, a saúde, a economia, e mais o quê? O ministro, médico, abraça a ciência e a ordem mundial. O presidente agarra-se a uma opinião, carreia consigo milhões de pessoas, e milhões de pessoas entendem que o ministro do presidente está com a razão. A ciência, com todo o seu conhecimento acadêmico, não tem a resposta imediata ao inusitado, embora o vírus já existisse. É razoável boicotar ou fazer uso político de algum recurso medicinal que tenta somar-se ao combate da doença? Temos tempo para aguardar a confirmação de pesquisas em caso de urgência com vidas em risco? Por que não se chega a um meio-termo? Seria o embate em campo aberto do iluminismo versus o obscurantismo? Será que a fé cega acredita honestamente na intervenção de um messias? A clareza do dia teria condições de jogar luzes sobre o mito da caverna? Nem Platão nem Freud explica. E enquanto a pandemia grassa, eis o resultado do pandemônio ideológico: O governo dividido, as pessoas divididas, a nação dividida. O vírus não tem partido. A doença não distingue lado, a maldita pandemia é cruelmente democrática!

Não fui eleitor de Bolsonaro. Não fui eleitor de Haddad. No famígero segundo turno para a escolha de um dos dois, nenhum dos dois me inspirava confiança. Não compareci às urnas. Torci muito para Bolsonaro fazer um bom governo, e ainda torço, como torceria para Haddad, caso fosse o eleito, porque o presidente é de todos os brasileiros, e se o Brasil afundar eu sou um dos primeiros a beber água. Eu faço parte de um grande mosaico e não me encontro em casta privilegiada. Se a coisa der errado, não tenho para onde ir, não tenho onde me refugiar, não posso me autoexilar em Londres, Nova York ou Paris. Não sou da proa, sou da popa. Também não sou das galés, nem tanto; mas não tenho envergadura para passar incólume por qualquer intempérie. Por que tamanha divisão, meu Deus? Por que o pequeno soldado, munido do seu próprio veneno, engrossa a tropa insana e vai ao campo de batalha, dia após dia, defender um general que nunca saberá seu nome? Se daqui a pouco, lá no alto da pirâmide, ele se alia ao ex-adversário (isso é tão facil pra eles!), enquanto o soldadinho permanecerá com seus pés de chumbo colados à base, tentando justificar o injustificável? Qual é o benefício individual ou social que se tira disso? Por que essa necessidade de convencer quem já se convenceu do oposto e ambos julgam um ao outro com a mesma medida?

Agora vem o pior. Os extremos divididos vão ao embate com tanto sangue no olho que perdem a capacidade da visão. Aí, como já não enxergam, habituados a defender o que até certo ponto fazia sentido, agora já se lançam na missão suicida de defender o indefensável. Vejamos, não é biografia, mas experiência. Votei em Lula todas as vezes que ele foi candidato a presidente e o elegi duas vezes chefe da nação brasileira. Por ele, confesso que cometi exageros: afrontei, fui afrontado, falei coisas que não devia e ouvi coisas que não queria, tudo em defesa do presidente que eu ajudara a eleger. Era o meu presidente, era o homem que trazia o trabalhador à esfera do reconhecimento, era o homem que derrubaria as perversas oligarquias com suas maléficas práticas genocidas ao longo dos anos, era o meu igual, era o meu representante, e até seus adversários, muitos deles, começaram a admitir que o Brasil estava sob a batuta de um homem sério, competente, comprometido com o progresso e a moralidade, e ainda impulsionado pela favorável ordem econômica mundial que afagava o Brasil. Lula me dava subsídio para brigar por ele, para expor a minha cara, para rebater argumentos com outros argumentos. Um dia, já no seu segundo mandato, as coisas começaram a ficar estranhas à minha observação. De repente vejo Lula se aconselhando com o sr. José Sarney, abraçando o sr. Paulo Maluf, fazendo salamaleques a Renan Calheiros, Jader Barbalho, Edson Lobão etc, etc. Uma notícia feia aqui, outra ali, daqui a pouco outro malfeito – eufemismo criado para se referir à falta de vergonha de empresários e altos escalões da cúpula – mais um acontecimento esquisito, um escândalo, dois escândalos, escândalos em série e o resto já se sabe exaustivamente, pelo menos aos que de fato desejam saber. Já não votei em Dilma, bem como não votei em Aécio, que também nenhum dos dois me representava. E lá por essas épocas, constrangido de ainda algumas vezes tentar defender o indefensável, tomei uma prudente decisão:

Se não sou conivente com tanta bandalheira e canalhice, também não tenho que passar vergonha pela vergonha que não me pertence. Sou pequeno, sou humílimo, sou um mero cidadão no meio da turba. Mas não tenho compromisso com o erro, não tenho contrato de fidelidade com o processo corrupto, não tenho político de estimação. E querem saber? Fiquei mais leve, mais livre, mais racional e com visão privilegiada de quem olha panoramicamente o todo sem me escravizar por ideias passionais, e ainda com perspectiva de ver alternativas fora da bolha dos implacáveis siameses extremos. E eu os quero bem e os respeito a todos como pessoas, como profissionais, até como militantes partidários, é seu direito pleno, mas também é meu direito não querer participar no tempo deles. E me incomoda saber que perdemos o tempo enquanto poderíamos falar de tantas coisas relevantes ou não, e cada qual com suas convicções preservadas para si mesmo.

Não, não sou omisso, não sou indiferente, não sou alienado, que se o fosse não estaria aqui a discorrer sobre este lamentável momento. É com muito pesar que assisto aos meus amigos divididos, os velhos companheiros afastados, as reuniões informais virando ambientes de conflito. Muitas dessas pessoas não vejo como eleitores ou simpatizantes de determinada ideologia aptos a mudarem de ideia ante evidências. Vejo seguidores de seitas dogmáticas dirigidas por gurus altamente ávidos por se manterem a qualquer custo no poder e governar para uma casta, um segmento, um nicho, embora nada disso lhes interesse de fato, porque os leva quem der mais.

E aí está o vírus. O vírus que nos parte diante de uma sociedade já partida, em que cada um dá o que tem, segundo as vibrações que capta e que emana. Uns crescem na solidariedade, na doação de si mesmos, no estender da mão a quem já foi à lona. Outros se apequenam, se diminuem, se mostram tão minúsculos que nos espantam a ponto de perguntarmos: O que aconteceu? Essa figura não era assim! Será que diminuiu tanto ou apenas encontrou o ideal cenário para se revelar? E aí está ele. O bendito e democrático vírus que traz consigo o poder da letalidade. Quisera que ele tivesse um caráter espiritual para levantar de sobre os nossos olhos imperfeitos o véu do orgulho que nos impede de ver as qualidades do outro bem como de enxergar os defeitos nossos.

Começaria por aí. E então nos distanciaríamos pelo tempo necessário, talvez o tempo de sentir saudade, mergulharíamos no oceano fundo da nossa consciência para emergirmos depois reformados por dentro, respirando vigorosamente, capazes de dar um abraço em quem quer que fosse e de olhar nos olhos e dizer em tom minimamente civilizado, com firmeza, mas com ternura: Eu não concordo contigo. Mas eu te respeito! E que Eles e Nós, num só esforço desatássemos os nós que nos apertam o cérebro, o peito e a garganta. E agora, como sendo todos nós, cada um de nós traria agulha e linha para, juntos, remendarmos, até unir novamente as duas metades deste Brasil rasgado. Utopia? Quem sabe! Delírio? Não sei. Talvez um pouco de sonho, um punhado de esperança e uma grande medida de fé. É porque ainda sou dos que acreditam na razão, no bom humor, no diálogo franco, mas sou também dos que acreditam que Deus é a negação do impossível!

Antonio Victor é o compositor da música Alma Transparente, gravada pela dupla Chico Rey e Paraná e o cantor Leonardo, entre outras interpretadas por diversos cantores

O poeta Antonio Victor Dias Filho é autor da música inédita Mulher Negra. Entre as homenageadas, a apresentadora da TV Globo, Maria Júlia Coutinho, a popular Maju. Seu último livro publicado tem como título: Ira Sagrada (contos)

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