terça-feira, maio 12, 2020
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Carlos Michiles

Por: Carlos Michiles

No meio de tanto pandemônio, ouço o som de música popular de um violão que vem do meu vizinho que faz living musical para isolar a angústia dos que se sentem isolados por essa pandemia. 

Enquanto o som se espalha sem acústica, escrevo essa crônica sobre Karl Marx (1818-1883) e seu isolamento para escrever sua obra monumental. 

Marx não foi apenas um dos grandes pensadores junto a Aristóteles, Rousseau e Kant, Weber e Durkheim. Foi ele que pegou a dialética idealista de Hegel e botou seus pés no chão, escrevendo aquela frase que ecoa até hoje como a XI Tese contra Feuerbach: "os filósofos até hoje interpretaram a história, cabe agora transformá-la." 

Frase essa que está escrita em sua lápide no cemitério em Londres, alguns kilometros de Manchester, cidade que Engels, seu grande amigo viveu e, eu morei por alguns anos. Por isso, pude visitar Marx e a casa de Engels onde hoje é um merecido museu histórico.

Com essa simples frase criou o pensamento do conflito estrutural entre as classes sociais que surge desta profunda radiografia que fez das bases da infraestrutura economica do capitalismo mundial, a contradiçõe de classes que chamou de motor da história. 

Marx, ao falecer aos 65 anos, deixou um legado para a humanidade. Em vida teve muitas decepções e sofrimento com a morte prematura de seus sete filhos, sendo que três de suas filhas se suicidaram. A ponto de dizer que tudo que "fez pelos outros é tirado de nossas crianças." 

Durante um tempo, se alimentava de pães e batatas cozidas. Seguindo seu exemplo, sou um desses que gosta de pães e batatas. Comia as batatas cozidas, lendo 18 Brumário.

Marx faz parte da minha formação intelectual original. Depois vieram os iluministas de Kant a Habermas até constatar que "tudo que é sólido, se desmancha no ar".

De tal maneira que pensar os problemas da sociedade, seja objeto da política, economia ou história, há que se pensar com método que leva em conta a complexidade da realidade, sempre considerando de onde, como e por que do problema. Relacionando sempre uma tentativa de compreensão, ligando causa e efeito no contexto em que aparece o fenômeno, vamos dizer assim.

Munido desse método, comecei a viajar sempre de carona para vivenciar a realidade do trabalho, quando essa aventura ainda era possível. 

Hoje se tornou mais fácil manter-se on line no www da nuvem, menoss que na estrada sem grana, sem banho e com barraca para dormir no sleeping bag. Em compensação com a cabeça cheia de leituras e utopias. 

De carona e sem dinheiro, saia da Asa Norte pelas estradas até chegar em Feira de Santana, Salvador ou Recife carregando nossas barracas. São Paulo acontecia com facilidade. Numa dessas peguei uma carona com um cara que viu na gente estudantes rebeldes e confiáveis, que até confidenciou ser o José Dirceu. Durante a longa conversa durante a carona, achou a Suel parecida, pelos seus cabelos loiros,  com a Rita Lee e eu com o Wanderley Cardoso, pelos meus olhos verdes. Éramos mesmo militantes rebeldes como o rock.

Vejam como é la vida. 

Os casos que aconteceram são inesquecíveis. Em uma dessas férias de julho, resolvi fazer um curso de verão em Teoria Política com uma bela professora vinda dos EUA que tinha um Fusca e dirigia uma moto com suas botas pretas. 

Era uma bela mulher com jeito mais de existencialista a la Beauvoir do que de marxista a la Jenny von Westphalen, esposa de Marx. Daquelas imaginadas precursoras cheia de autonomia feminina. Comportamento que as filhas de Marx que estudávamos, nunca tiveram e morreram rodeadas de preconceitos no "mundo dos homens", como repetia a professora Claire Bacha.

Ela chegava com aquele ar de acadêmica e seu curso foi muito cobiçado e aplaudido. 
O programa do curso de baseava no livro Poder político e classes sociais, de Nicos Poulantzas. O curso focava entender a questão da autonomia relativa do Estado, usando como exemplo o tal clássico da teoria marxista 18 Brumário. 

Quando escrevia 18 Brumário, Marx preocupado em mudar a consciência do mundo, comia pães e batatas cozidas, morando numa casa modesta em Dean Street, em Londres. 

Durante esse período, não havia esse invento da internet e a gente estudava muito e aprendia lendo os livros impressos. Em grupos de estudo. 

E como eram anos políticos difíceis, morávamos amontoados em repúblicas e o jantar era sempre preparado pela Claire que colocava batatas, água e sal na panela de pressão para alimentar e discutir aqueles assuntos complicados que a gente não entendia mas tinha que aprender para depois apresentar seminário e escrever um "paper" de fim de curso. 

Mas nada melhor do que estudar e descobrir o prazer com quem a gente aprende a descobrir o que está por trás das idéias. 

Como Marx, Nietszche e Freud são reconhecidos como os filósofos da suspeita. Porque lhes interessa suspeitar das aparências. Ainda que depois dos anos tenham se tornado dogmas e Marx, desconfiado, tenha dito ao seu genro Paul Lafargue " eu não sou marxista". 

Marx se alimentava com batatas cozidas. Se fosse algo sofisticado dos chef de cozinha, talvez não tivesse encarnado o pensamento que se compara ao sistema de Copérnico e a lei da gravidade de Newton.
 
Um gênio que deve ser lido, contestado, criticado e respeitado.  Desde que se leia e não repita a grosseira ignorância de não ler. Ou, então, se entregar a preguiça e a falta de coragem para se servir do próprio entendimento crítico da miserável realidade atual no Brasil e no mundo.

1 comentários:

  1. Excelente! Parabéns pela mescla historica e autobiográfica!! 👏👏

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