Estudo de Willis Santiago Guerra
Filho introduz a categoria de “gramática poética de competências” e impulsiona
aquela que já é apontada como a candidatura mais organizada de toda a história
da Academia Brasileira de Letras
RIO DE JANEIRO — Um novo e aprofundado estudo crítico
dedicado à obra de Taurino Araújo acaba de introduzir uma formulação inédita à
fortuna crítica do poeta, jurista, artista visual e polímata baiano.
Entre
os 17 candidatos oficialmente inscritos na sucessão de Zuenir Ventura, Anna
Bella Geiger, Taurino Araújo e Drauzio Varella aparecem como os três nomes
apontados como favoritos na disputa pela Cadeira 32.
Doutor em Direito pela Universidade de Bielefeld,
Filosofia pela UFRJ, Comunicação e Semiótica e Psicologia Social e Política
pela PUC-SP, Willis Santiago Guerra Filho baseia sua análise na estrutura
minuciosa de Poema absurdo.
No artigo intitulado Na língua de Taurino Araújo:
xadrez, casa, tempo, drama e Kafka no Poema absurdo, Willis Santiago Guerra
Filho, professor titular da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
(UNIRIO), propõe a existência de uma verdadeira “língua de Taurino Araújo”,
descrita tecnicamente como uma gramática poética de competências.
O lançamento da pesquisa soma-se à fundamentação
intelectual da postulação de Araújo à Cadeira 32 da Academia Brasileira de
Letras (ABL), candidatura já apontada como favorita e como a mais organizada de
toda a história da instituição.
A hipótese central do ensaio procura explicar uma
operação recorrente e sofisticada na produção do autor: palavras, objetos,
tempos e seres preservam sua identidade original, mas passam a realizar ações e
a manifestar capacidades que, fora do universo poético, não lhes competiriam.
Sob essa ótica, o absurdo não rompe a coerência do
poema, mas institui outra ordem de admissibilidade. É o que permite que o
passado adquira agência para mover o cavalo no xadrez, que o relógio ganhe
direito à defesa, que domingos pinguem de uma torneira, que retratos vazios
envelheçam e que telhas guardem a memória de alguma chuva.
Um dos pilares do ensaio de Guerra Filho é a
exploração do duplo sentido da palavra “casa” na Língua Portuguesa,
significante que articula simultaneamente a habitação concreta e a posição em
um tabuleiro de xadrez.
Na língua de Taurino Araújo, essa coincidência lexical
transforma o espaço vivido no próprio tabuleiro da existência. As tentativas
humanas de promover um recomeço absoluto — como comprar uma residência nova
para não precisar mudar de passado — colidem inevitavelmente com uma
arquitetura poética autônoma que insiste em produzir paredes anteriores.
A pesquisa de Guerra Filho adota rigoroso cuidado
metodológico para não reduzir a vasta produção de Araújo a um único poema,
situando-a em um corpus robusto que ultrapassa três mil páginas de poesia
desenvolvidas ao longo de quatro décadas e reunidas no volume A caturna e
outros poemas: 40 anos de poesia brasileira 1984-2024.
A formulação não surge isolada, mas dialoga com uma
fortuna crítica em franca expansão teórica, somando-se às leituras de Renalvo
Lemos de Carvalho (regimes formais e disciplina), Nelson Cerqueira (renovação
do idioma), Lícia Soares de Souza (coerência transdiscursiva), Edson Reis
Santana (eloquência condensada e performatividade), Rinaldo Trindade, Eduardo
Boaventura e Celso Cunha Neto.
Ademais, o professor titular conecta a análise de
Poema absurdo ao texto O pendor ao drama — Tributo a Franz Kafka, rastreando em
ambos os poemas de Taurino Araújo mecanismos semelhantes de transformação
semântica, forte presença do léxico jurídico (prazos, sentenças, provas e
testemunhas) e uma obstinada resistência ao encerramento definitivo, em que
termos como o xeque-mate ou o fim não garantem o término do que foi vivido.
Uma campanha histórica e intelectual
A postulação de Taurino Araújo à vaga aberta na
sucessão de Zuenir Ventura na Cadeira 32 — outrora ocupada pelo escritor Ariano
Suassuna e que tem como patrono Manuel de Araújo Porto-Alegre — destaca-se como
um fenômeno sem precedentes na história da ABL.
Em vez de limitar-se à tradicional movimentação de
bastidores e à simples apresentação de um currículo, a candidatura de Taurino —
uma das três apontadas como favoritas entre os 17 concorrentes — desenvolve-se
como um projeto intelectual simultâneo nos campos literário, crítico,
acadêmico, editorial, jornalístico e institucional.
A campanha tem demonstrado a adequação de Taurino
Araújo explorando a própria genealogia da cadeira. A multitrajetória do patrono
Porto-Alegre — poeta, pintor, professor, jornalista, diplomata e teatrólogo —
encontra correspondência na formação plural de Taurino Araújo, cuja atuação
transita entre a poesia, o Direito, o ensaio e as artes visuais, com origens no
Grupo de Arte Canoatan, em Ubatã.
Essa simetria histórica ganhou repercussão na própria
seção oficial “ABL na mídia”, mantida pela Academia Brasileira de Letras, que
reproduziu as análises de Celso Cunha Neto (Porto-Alegre, Taurino Araújo e a
cadeira que o espera) e de Rommel Robatto (Depois de Ariano, é Taurino).
Com as inscrições encerradas e o nome de Taurino
Araújo oficialmente homologado para a eleição marcada para o dia 12 de
novembro, o estudo de Willis Santiago Guerra Filho coroa um arquivo
contemporâneo de recepção crítica que se constrói publicamente enquanto o
próprio processo eleitoral se desenrola.
A formulação da “língua de Taurino Araújo” afirma-se,
assim, não como mero elogio estético, mas como uma nova categoria operatória
para compreender a ampliação das competências do próprio idioma no fazer
poético.
A formulação da “língua de Taurino Araújo”
afirma-se, assim, não como mero elogio estético, mas como uma nova categoria
operatória para compreender a ampliação das competências do próprio idioma no
fazer poético.


0 Comentários