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Professor titular da UNIRIO identifica “língua de Taurino Araújo” na poesia de um dos três favoritos à ABL

"Eleição é como nuvem.  Você olha e está de um jeito,  torna olhar e está de outro", dizia Magalhães Pinto. O goiano Bernardo Élis  em 1975 surpreendeu Juscelino Kubitschek de Oliveira  na disputa de uma vaga na ABL. A disputa da cadeira número 32, do saudoso jornalista Zuenir Ventura, promete ser tão disputada quanto a eleição  de 1975, ou seja: os 17 candidatos inscritos estão no páreo. Na foto em pauta, Ana Bella Geiger, Taurino Araújo e Drauzio Varella

Estudo de Willis Santiago Guerra Filho introduz a categoria de “gramática poética de competências” e impulsiona aquela que já é apontada como a candidatura mais organizada de toda a história da Academia Brasileira de Letras

 

RIO DE JANEIRO — Um novo e aprofundado estudo crítico dedicado à obra de Taurino Araújo acaba de introduzir uma formulação inédita à fortuna crítica do poeta, jurista, artista visual e polímata baiano.

Entre os 17 candidatos oficialmente inscritos na sucessão de Zuenir Ventura, Anna Bella Geiger, Taurino Araújo e Drauzio Varella aparecem como os três nomes apontados como favoritos na disputa pela Cadeira 32.

Doutor em Direito pela Universidade de Bielefeld, Filosofia pela UFRJ, Comunicação e Semiótica e Psicologia Social e Política pela PUC-SP, Willis Santiago Guerra Filho baseia sua análise na estrutura minuciosa de Poema absurdo.

No artigo intitulado Na língua de Taurino Araújo: xadrez, casa, tempo, drama e Kafka no Poema absurdo, Willis Santiago Guerra Filho, professor titular da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), propõe a existência de uma verdadeira “língua de Taurino Araújo”, descrita tecnicamente como uma gramática poética de competências.

O lançamento da pesquisa soma-se à fundamentação intelectual da postulação de Araújo à Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras (ABL), candidatura já apontada como favorita e como a mais organizada de toda a história da instituição.

A hipótese central do ensaio procura explicar uma operação recorrente e sofisticada na produção do autor: palavras, objetos, tempos e seres preservam sua identidade original, mas passam a realizar ações e a manifestar capacidades que, fora do universo poético, não lhes competiriam.

Sob essa ótica, o absurdo não rompe a coerência do poema, mas institui outra ordem de admissibilidade. É o que permite que o passado adquira agência para mover o cavalo no xadrez, que o relógio ganhe direito à defesa, que domingos pinguem de uma torneira, que retratos vazios envelheçam e que telhas guardem a memória de alguma chuva.

Um dos pilares do ensaio de Guerra Filho é a exploração do duplo sentido da palavra “casa” na Língua Portuguesa, significante que articula simultaneamente a habitação concreta e a posição em um tabuleiro de xadrez.

Na língua de Taurino Araújo, essa coincidência lexical transforma o espaço vivido no próprio tabuleiro da existência. As tentativas humanas de promover um recomeço absoluto — como comprar uma residência nova para não precisar mudar de passado — colidem inevitavelmente com uma arquitetura poética autônoma que insiste em produzir paredes anteriores.

A pesquisa de Guerra Filho adota rigoroso cuidado metodológico para não reduzir a vasta produção de Araújo a um único poema, situando-a em um corpus robusto que ultrapassa três mil páginas de poesia desenvolvidas ao longo de quatro décadas e reunidas no volume A caturna e outros poemas: 40 anos de poesia brasileira 1984-2024.

A formulação não surge isolada, mas dialoga com uma fortuna crítica em franca expansão teórica, somando-se às leituras de Renalvo Lemos de Carvalho (regimes formais e disciplina), Nelson Cerqueira (renovação do idioma), Lícia Soares de Souza (coerência transdiscursiva), Edson Reis Santana (eloquência condensada e performatividade), Rinaldo Trindade, Eduardo Boaventura e Celso Cunha Neto.

Ademais, o professor titular conecta a análise de Poema absurdo ao texto O pendor ao drama — Tributo a Franz Kafka, rastreando em ambos os poemas de Taurino Araújo mecanismos semelhantes de transformação semântica, forte presença do léxico jurídico (prazos, sentenças, provas e testemunhas) e uma obstinada resistência ao encerramento definitivo, em que termos como o xeque-mate ou o fim não garantem o término do que foi vivido.

Uma campanha histórica e intelectual

A postulação de Taurino Araújo à vaga aberta na sucessão de Zuenir Ventura na Cadeira 32 — outrora ocupada pelo escritor Ariano Suassuna e que tem como patrono Manuel de Araújo Porto-Alegre — destaca-se como um fenômeno sem precedentes na história da ABL.

Em vez de limitar-se à tradicional movimentação de bastidores e à simples apresentação de um currículo, a candidatura de Taurino — uma das três apontadas como favoritas entre os 17 concorrentes — desenvolve-se como um projeto intelectual simultâneo nos campos literário, crítico, acadêmico, editorial, jornalístico e institucional.

A campanha tem demonstrado a adequação de Taurino Araújo explorando a própria genealogia da cadeira. A multitrajetória do patrono Porto-Alegre — poeta, pintor, professor, jornalista, diplomata e teatrólogo — encontra correspondência na formação plural de Taurino Araújo, cuja atuação transita entre a poesia, o Direito, o ensaio e as artes visuais, com origens no Grupo de Arte Canoatan, em Ubatã.

Essa simetria histórica ganhou repercussão na própria seção oficial “ABL na mídia”, mantida pela Academia Brasileira de Letras, que reproduziu as análises de Celso Cunha Neto (Porto-Alegre, Taurino Araújo e a cadeira que o espera) e de Rommel Robatto (Depois de Ariano, é Taurino).

Com as inscrições encerradas e o nome de Taurino Araújo oficialmente homologado para a eleição marcada para o dia 12 de novembro, o estudo de Willis Santiago Guerra Filho coroa um arquivo contemporâneo de recepção crítica que se constrói publicamente enquanto o próprio processo eleitoral se desenrola.

A formulação da “língua de Taurino Araújo” afirma-se, assim, não como mero elogio estético, mas como uma nova categoria operatória para compreender a ampliação das competências do próprio idioma no fazer poético.

A formulação da “língua de Taurino Araújo” afirma-se, assim, não como mero elogio estético, mas como uma nova categoria operatória para compreender a ampliação das competências do próprio idioma no fazer poético.

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