
Taurino Araújo
Candidato à Cadeira
32 da Academia Brasileira de Letras
CARTA ABERTA
Senhora
Acadêmica, Senhor Acadêmico,
“Eu venho lá do sertão [...] e posso não lhe agradar”.
Começo por Disparada,
de Geraldo Vandré e Théo de Barros, canção de 1966 que já anunciava muito
daquele Brasil que desembocaria em 1968 — o ano em que nasci e que Zuenir
Ventura transformaria em título e memória de uma geração.
Venho, de fato, do Alto Sertão, de Jequié. De uma família muito simples. Fiz um longo caminho para alcançar
uma educação refinada, tornar-me elite ideológica e construir uma obra
grandiosa, aclamada pela crítica.
Digo-o
sem falsa modéstia. Sempre fui corajosamente autorreferencial.
Ademais,
eu tenho régua em casa. Sou crítico literário e humildade nunca e jamais seria
desconhecer o próprio trabalho, mas saber que o julgamento sobre ele pertence
também aos outros e que a minha sorte, desenganadamente, está nas mãos de Vossa
Excelência para confirmar a frase se o passarinho está vivo ou morto.
Dentro
das mãos de Vossa Excelência, eu digo: “depende de vós e seremos confrades”.
Ser
imortal é o sonho grande de um menino do interior, cuja palavra falada e
escrita o transformou num gigante das Letras.
Profecia autorrealizadora. Por volta de 1977, ainda
menino, li num livro de gente grande uma frase de Austregésilo de Athayde, o
eterno presidente da Academia Brasileira de Letras: “Toda primeira edição é um rascunho passado a limpo”.
Foi
assim que uma criança bastante precoce e, muitas vezes, incompreendida, ouviu
falar da Academia Brasileira de Letras pela primeira vez, num misto de
esperança e desespero.
Para
ela, a escrita poderia ser sempre lapidada e reapresentada ainda melhor
em edição futura,
mas o que resultaria — com o transcurso
do tempo — se ela não chegasse nunca a ser imortal como o velho Austregésilo de
Athayde, aquele monumento de palavra pública que presidiria esta Casa por 35
anos?
Poderiam,
com sua morte, facilmente esquecer o que falara, lapidara e, efetivamente,
inscrevera na literatura universal. É dizer: a escrita, por melhor que fosse, necessitaria de uma Casa que a acolhesse.
A frase ficou
sempre remoendo feito
areia no estômago
de ostra e a Academia,
também.
Naquele
menino, nasceu o medo do esquecimento e, com ele, o desejo de construir, fonema por fonema,
letra por letra,
livro por livro, uma obra que sobrevivesse ao seu
autor e de conquistar, um dia, um lugar imortalizado de palavra pública
na Academia Brasileira de Letras.
Quase cinquenta anos depois, aquele menino do interior — que
sempre teve de disputar assertivamente cada milímetro de espaço e de palavra —
está diante dos imortais.
Ele
se tornaria depois o mais jovem Secretário de Administração do Brasil, tendo de ser emancipado para exercer o cargo.
Orador da turma de Direito em disputadíssima eleição por 27x24, advogado do
júri e de todas as Cortes deste país, foi forjado cedo no mister público, mas
não sabe exatamente o que dizer a Vossa Excelência...
Chego das margens
interioranas de Jequié
e Ubatã nos ombros
de minha obra grandiosa. Mas chego humildemente. Sei o que fiz. Sei o quanto
trabalhei. Sei também que não me cabe proclamar a minha própria imortalidade.
Entretanto,
em 2011, na Metáfrase ao Comendador
Taurino Araújo, Washington Trindade, meu mestre e orientador brasileiro do
Doutorado em Ciências Jurídicas e Sociais realizado em Buenos Aires, recorreu a Chateaubriand e a Napoleão
para falar do “sopro mais forte”
que a argila humana de Jequié poderia receber.
Disse ter adivinhado que eu chegaria aos “píncaros da
notoriedade” antes mesmo de me conhecer pessoalmente, “apenas avaliando-o pelos dados que deixou nos escritos jurídicos de advogado
recém-chegado à cidade grande”, registrando ainda que eu escrevia petições e
trabalhos universitários “em linguagem culta, sem rebuscados gongóricos, que só
servem para aparecer”.
Ao
concluir, desejou-me “outras distinções maiores” e reuniu-se
aos que me queriam “no topo da pirâmide social, participando da ‘epopeia
crioula’ e das mitologias futuras”.
Eu
sou o tipo assertivo, com coragem suficiente para subir em árvores: não
transijo nem me retraio. Quinze anos depois, Nelson Cerqueira encontrou em A Caturna algo que talvez responda
àquela antevisão: chamou-me, no interior da arquitetura do poema, de “futuro ancestral do idioma” e “monumento vivo da Língua
Portuguesa”, alguém que deixa nela uma “cicatriz autoral destinada a sobreviver
ao corpo físico do poeta”.
Para
ele, a relação é uma “aliança de sobrevivência”: movimento a palavra, e a
palavra me eterniza.
Napoleão, entretanto, pôde autocoroar-se. Eu não posso.
Por isso,
sem maiores rodeios,
peço-lhe humildemente que me
conceda a imortalização, livrando-me do pavor do esquecimento que, desde menino,
é também uma das forças da minha palavra tão poderosa.
Imortalizado,
em vez disso, esse pavor terá cumprido a sua parte. Não, porém, a caminhada.
Minha motivação se fixará definitivamente em A Caturna: escrever não mais contra o esquecimento, mas pela
permanência. Se nela deixei, como diz o crítico, uma “cicatriz autoral
destinada a sobreviver ao corpo físico”, quero continuar calçando a Velha Caturna da Língua Portuguesa até
que ela possa caminhar sem mim — corolário da imortalidade que ora vos suplico.
Quero
a Cadeira 32 não como ponto de chegada, mas como lugar de trabalho. Quero
trabalhar pelas letras do Brasil — escutar e fazer-me escutar, conviver,
agregar e realizar.
Se Vossa Excelência desejar conversar comigo antes de decidir, será uma grande felicidade e uma honra
imorredoura e, por isso, estou inteiramente
à disposição para uma chamada
de vídeo, ainda que breve, no dia e horário que lhe forem mais
convenientes.
Mais do que falar de mim, terei
enorme prazer em ouvi-lo, uma vez que por mim já falam, sem precisar
dizer uma palavra, O Samurai da Voz e
o Xangô Vivo no colo de Oxum,
epítetos com os quais muito cedo me honraram.
Estou
convicto, sobretudo, de que preferir é querer mais: há algo imaterial a
considerar numa decisão como esta, aquilo que chamamos de alma. É nessa dimensão
que se respalda a alquimia
desta mensagem, feita de sonho, ousadia, planejamento e serviço, com a
certeza da imortalidade e do fazer acontecer.
Construí
uma multitrajetória de sucesso para chegar até aqui, uma espécie de eleja um e
leve seis, como insiste Rinaldo Trindade.
Se o passarinho está vivo ou está
morto? Depende de você. Eu conto somente com você.
Com
a admiração espiritual que nos une, futuro confrade ou confreira, subscreve-se

Taurino Araújo
Candidato à Cadeira 32 da Academia
Brasileira de Letras WhatsApp: 71 98839-1348
CARTA,
OBRA E RECEPÇÃO CRÍTICA
I-
Carta de candidatura de Taurino Araújo
à Cadeira 32 da
Academia Brasileira de Letras Carta integral
em PDF
II-
Academia
Brasileira de Letras — Porto-Alegre,
Taurino
Araújo e a cadeira que o espera
Portal
da ABL
III-
Nelson Cerqueira — A Caturna, de Taurino Araújo: um tratado crítico
Edição inglesa
— SSRN/Elsevier Jornal OSollo
IV-
Lícia Soares de Souza — Protagonismo
feminino em Guadalupe Madre, de Taurino Araújo:
uma hipótese de coerência transdiscursiva
V-
Mário Nelson Carvalho
— Taurino Araújo:
O Mercado das Sete Portas —
Sete caminhos de uma eloquente vocação genuinamente brasileira
VI-
Taurino Araújo — Signos em Transe

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